What day knits night forgets

Hi, folks!

Stuart and Richard are hosting the Spanish and Portuguese Reading Months in July & August, and I will take this opportunity not only to read some damn good books written in the last flower of Lazio, but also to showcase some of my favourite Portuguese-speaking poets.

To start, you have three poems by Brazilian poet Ana Martins Marques, translated by Elisa Wouk Almino, Julia Sanches and Alison Entrekin. Hope you enjoy!

Yours ever so truly,

J.


Penelope (i-iv)

Ana Martins Marques, translated by Julia Sanches.
Originally published in Modern Poetry in Translation2014 Number 2 – Twisted Angels

(i)

What day knits
night forgets.

What day traces
night erases.

By day, threads,
by night, tracks.

By day, silk,
by night, loss.

By day, cloth,
by night, fault.

(ii)

Day’s plot
in night’s yarn
or night’s plot
in day’s yarn
as I spin:
fidelity by a thread.

(iii)

By day thimbles.
At night no one.

(iv)

And she did not say
I am no longer yours
I gave my heart to quiet a long time ago
while your heart swayed in travel
as I waned
amongst the night’s drapes
you traversed unsuspected distances
the charmed bodies of women whose strange language
I could use to spin a shroud
of our common tongue.
And she did not say
in the beginning I thought of you
first as one who burns before
a dying campfire
later as one who, remembering, visits childhood shores
and then as one who recalls a long summer
and later as one who forgets.
And she also did not say
loneliness can come in many forms,
as many as there are foreign lands,
and it is always welcoming.


clocks

Ana Martins Marques, translated by Elisa Wouk Almino
Originally published in Guernica Mag

What purpose would serve us
a clock?

if we wash the white clothes:
it is day

the dark clothes:
it is night

if you part with a knife an orange
in two:
day

if you open with your fingers a ripe
fig:
night

if we spill water:
day

if we overturn wine:
night

when we hear the toaster’s alarm
or the kettle like a small animal
that would try to sing:
day

when we open certain slow books
and maintain them alight
at the expense of alcohol, cigarettes, silence:
night

if we sweeten the tea:
day

if we don’t sweeten it:
night

if we sweep the house or wax it:
day

if on it we wipe damp cloths:
night

if we have migraines, eczemas, allergies:
day

if we have fever, cramps, swellings:
night

aspirins, X-rays, urine test:
day

bandages, compressions, ointments:
night

if I heat in bain-marie the honey that crystallized
or use lemons to clean the glass:
day

if after eating apples
I keep on a whim the dark purple paper:
night

if I beat the whites into snow:
day

if I cook large beets:
night

if we write with pencil on lined paper:
day

if we fold the sheets or crease them:
night

(expansions and peaks:
day
layers and folds:
night)

if you forget in the oven a yellow
cake:
day

if you leave the water to boil
alone:
night

if through the window the ocean is quiet
sluggish and greasy
like a puddle of oil:
day

if it is furious
foaming
like a rabid dog:
night

if a penguin reaches Ipanema
and laying itself on the hot sand senses its gelid heart
boiling:
day

if a whale runs aground during low tide
and dies heavy, dark,
as in an opera, singing:
night

if you unbutton slowly
your white blouse:
day

if we undress with anxiety
creating around us an ardent circle of cloths:
night

if a green brilliant beetle beats repetitively
against the glass:
day

if a round bee circles the room
disoriented by sex:
night

What purpose would serve us
a clock?


The Earring

Ana Martins Marques, translated by Alison Entrekin.
Originally published in Modern Poetry in Translation2014 Number 2 – Twisted Angels

Maybe like stars
things are separated
by small intervals of time
maybe our hands
from one day to the next
will cease to fit
inside one another
maybe on the way to the cinema
I’ll lose one of my favorite
ideas
and maybe
on the way back
I’ll have resigned myself
happily
to this loss
maybe
my dirty reflection
in the coffee shop window
is a more precise
image of me
than this photograph
more precise than the memory
that an old school friend
has of me
more precise than the idea
I have
of myself now
and if so
mybe the tired girl
with sad eyes
who works at the coffee shop
has a more faithful
image of me
than anyone else
maybe a gesture
a way of pursing the lips
will suddenly
bring you back
your entire childhood
in the same way that a mug
can be worth a trip
and a chair
can be equal to a city
but a dog lying in the sun isn’t the sun
and a Wednesday cam’t be the same
as a lifetime
maybe
my darling
by losing my left earring
in your bed
I’ll force you to think of me
later
at least for a moment
as you pick up the tiny circle
of silver
whose cold
weight
you now feel in your hands
as if it were
(albeit ever so imprecise)
my love


Original poems in Portuguese:

PENÉLOPE

I

O que o dia tece,
a noite esquece.
O que o dia traça;

a noite esgarça.
De dia, tramas,
de noite, traças.
De dia, sedas,
de noite, perdas.
De dia, malhas,
de noite, falhas.

II

A trama do dia
na urdidura da noite
ou a trama da noite
na urdidura do dia
enquanto teço:

a fidelidade por um fio.

III

De dia dedais.
Na noite ninguém.

IV

E ela não disse
já não te pertenço
há muito entreguei meu coração ao sossego
enquanto seu coração balançava em viagem
enquanto eu me consumia
entre os panos da noite
você percorria distâncias insuspeitadas
corpos encantados de mulheres com cujas línguas
estranhas eu poderia tecer uma mortalha
da nossa língua comum.
E ela não disse
no início ainda pensei em você
primeiro como quem arde diante de uma fogueira
apenas extinta

depois como quem visita em lembrança a praia da infância
e então como quem recorda o amplo verão
e depois como quem esquece;

E ela também não disse
a solidão pode ter muitas formas,
tantas quantas são as terras estrangeiras,
e ela é sempre hospitaleira.

V

A viagem pela espera
é sem retorno.
Quantas vezes a noite teceu
a mortalha do dia.
quantas vezes o dia
desteceu sua mortalha?
Quantas vezes ensaiei o retorno —
o rito dos risos,
espelho tenro, cabelos trançados,
casa salgada, coração veloz?
A espera é a flor que eu consigo.
Água do mar, vinho tinto — o mesmo copo.

VI

E então se sentam
lado a lado
para que ela lhe narre
a odisseia da espera.

Source: A vida submarina (2009)

RELÓGIO

De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentass
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?

Source: Da arte das armadilhas (2011)

O BRINCO

Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma de minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto Qum jeito de dobrar
os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.

Source: O livro das semelhanças (2015)


Dora Wheeler, "Penelope Unraveling Her Work at Night," 1886
Dora Wheeler, “Penelope Unraveling Her Work at Night,” 1886

 

 

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2 Comments Add yours

  1. Those are lovely – thank you for sharing!

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    1. Thank you! I am glad you enjoyed! 🙂

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