A still light in the middle of the whirlwind

“There are men opening their hands like books
Intense surfaces without noise – the springs
On smooth rock, in the unforeseen desert

Silence is warm. It is quiet of an attentive
Clarity. They open it – the dew
Not always crossed by light

It is always in the morning that the currents
Open the writings without opening the lips
They whisper over the ears
Of the man who speaks alone

They do not always open the door of those who are at home
Neither the wound that heals over time

They open a fountain and a place ahead. Each tributary
And its bed. They open
The deep hooks of signs”

[translated by Juliana Brina]

*

“They bring the waters in us and land us
On the ground
(Next to the shade, where light can grow)
They bring the resin, a persistent
Bird. They are opening
Eggs, pinions, sprouts
They are reading the inside of the shells, the bottom
Of the river beds
The core of a hiss

A leaf
A new stone marked
To be

Stone
Hiss

New leaf falling again”

[translated by Juliana Brina]

*

“Men who are like misplaced places
Men who are like plundered houses
Who are like places off the maps
Like stones off the floor
As orphaned children
Men with no time zone
Troubled men with no compass to rest on

Men who are like invaded borders
Who are like barricaded roads
Men who want to go through choked shortcuts
Men sulphurized by all destinations
Laid off from their own lives

Men who are like the refusal of strategies
Who are like smugglers’ hideouts
Incarcerated men opening themselves with knives

Men who are like irreparable damage
Men who are living survivors
Men who are like places diverted from
Their place”

[translated by Juliana Brina]

*

“It turned out that things got destroyed without him surviving
And it was late.
Alone didn’t use to mean lacking someone
And what hurt him did not have the disease’s cyst
Only the quiet space of things that are left behind.
It turned out that nothing had been done outside
Of the heart.
It turned out that he had spent the night opening his eyes
Not to be interrupted
Reaching out his hands to be alive
And knowing that not even he would come to the brink of himself
For he had  been strictly concerned with being absent.
Even if he had walked very slowly
With no other way of hoping they would visit him.
He who is now the one who never rested
Who will never find the place of quietness
Unless there is balance in vertigo
A still light in the middle of the whirlwind.”

[translated by Juliana Brina]


Original poems in Portuguese:

“Há homens a abrir as mãos como livros
Superfícies intensas sem ruído – as nascentes
No rochedo liso, no deserto imprevisto

É quente o silêncio. É quieto de uma claridade
Atenta. Eles o abrem – o orvalho
E nem sempre o atravessa o lume

É sempre de manhã que se abrem as correntes
Abrem os escritos sem abrir os lábios
Eles sussurram sobre os ouvidos
Do homem que fala sozinho

Nem sempre abrem a porta de quem está em sua casa
Nem a ferida que se cura com o tempo

Abrem uma fonte e um lugar à frente. Cada afluente
E o seu leito. Abrem
Os anzóis profundos dos sinais”

[Source: “Dos Líquidos”, 2000]

*

“Eles trazem em nós as águas e pousam-nos
No chão
(É junto à sombra, é onde a luz pode crescer)
Eles trazem a resina, uma ave
Persistente. Estão a abrir
Os ovos, os pinhões, os rebentos
Estão a ler o interior das cascas, o fundo
Dos leitos
O miolo de um silvo

Uma folha
Uma pedra nova assinalada
Para ser

Pedra
Silvo

Folha nova caindo outra vez”

[Source: “Dos Líquidos”, 2000]

*

“Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar”

[Source: “Homens que são como lugares mal situados”, 1998]

*

“Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.”

[Source: “Explicação das árvores e outros animais”, 1998]


Vilhelm Hammershøi, Sunbeams or Sunshine. Dust Motes Dancing in the Sunbeams, 1900.
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